sexta-feira, 23 de julho de 2010

A fé e a soberania de Deus


Por Leonardo Gonçalves

Recentemente terminei uma série de estudos na carta de Paulo aos Romanos. Como sempre acontece, a leitura de Romanos instigou o pensamento dos crentes, fazendo-os contemplar com maior clareza o Deus soberano que os salvou, bem como o modo como ele salva.

Um dos pontos de tensão na carta é a aparente dualidade entre a fé e a soberania de Deus, tanto que alguns escritores evangélicos, na tentativa de conciliar a fé (do homem) e a soberania (de Deus), acabam por optar pelo sinergismo, que é a crença de que o homem pode cooperar com Deus para a sua salvação. Definitivamente, não creio assim. Estou convencido de que a soberania de Deus não deixa nenhum espaço para a glorificação humana.

A aparente tensão somente surge quando ignoramos o fato de que a fé (do homem) é também a fé de Deus. Senão, vejamos:

Primeiramente devemos perceber que a fé é um dom de Deus. Isso está claro em passagens como Filipenses 1.29 (onde está escrito que a nós foi concedido crer), em Hebreus 12.2 (onde Cristo é o autor e consumador da nossa fé), e de um modo muito especial em Efésios 2.8, onde a salvação de graça e por meio da fé aparece claramente como um dom de Deus. Poderíamos ainda mencionar Pedro, quando este diz que Deus, por seu divino poder, nos concedeu “tudo que diz respeito à vida e a piedade” (2Pd 1.3) e também Tiago, quando afirma que toda “boa dádiva e dom perfeito vem de Deus” (Tg 1.17), mas creio que estas referências são suficientes.

O segundo ponto que quero aclarar é que a fé, sendo um dom de Deus, é irrevogável. Isso encontramos em Romanos 11.29, onde Paulo diz que “os dons de Deus e o seu chamado são irrevogáveis”. Sendo assim, podemos afirmar que um crente verdadeiro pode apresentar uma fé fraca ou forte, mas ele sempre terá fé. No entanto, não ignoro que alguns, tendo conhecido o evangelho, se distanciam, aparentando perder a fé. Estes, na realidade, apenas aparentavam fé, pois nunca a tiveram (1Jo 2.19).

Em terceiro lugar, gostaria de esclarecer que nem todas as pessoas possuem fé salvífica. Obviamente existe um tipo de fé comum a todos os homens, como a fé nos ídolos ou em si mesmos, mas nem todos possuem fé para a salvação. Paulo aos Tessalonicenses disse que “a fé não é de todos” (2Ts 3.2), e isso pode ser percebido também quando observamos ao nosso redor e fatalmente constatamos que nem todos se salvam. Ora, por alguma razão Deus decidiu não conceder a fé, que é um dom dEle, a todos os homens.

Agora, a razão porque Deus escolheu dar a fé a alguns homens não pode ser a bondade do próprio homem (pois assim a salvação seria por obras), nem mesmo algo intrínseco ao homem (porque neste caso a glória seria do homem). Por isso afirmamos que a única razão coerente porque Deus decidiu dar a fé a alguns homens é a sua livre vontade, ou soberania.

Nosso quarto ponto visa responder a seguinte pergunta: “Uma vez que a fé é um dom de Deus, irrevogável e não é de todos, então a quem Deus dá a fé?”. A resposta a esta pergunta é que somente os escolhidos de Deus terão fé. Veja, por exemplo, o modo como Paulo começa a escrever sua carta a Tito: “Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus (...)” (Tt 1.1). Observe aqui que a fé é um presente de Deus aos que ele escolheu. Também Lucas, em Atos dos Apóstolos, narra que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (At 13.48). Somente aqueles que estavam ordenados para a vida eterna puderam crer.

A suma destas coisas é que, sabendo que a fé que o homem exerce é um dom de Deus, não convém repetir o já desgastado jargão “Salvação: Soberania de Deus; decisão sábia do homem”, uma vez que a salvação não é um projeto com participação humana, antes, é um projeto de Deus e uma decisão soberana de Deus que redundou em uma resposta humana. Também não devemos supor que nossa fé é a causa da eleição, pois primeiro foi a eleição (Ef 1.4), e depois veio a fé.

“Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?”

Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

UNIDADE EM MEIO A DIVERSIDADE


Por Miguel Silva

A unidade é um dos principais temas abordados por Paulo na carta aos coríntios ao que parece que estava havendo um grande desentendimento sério nessa igreja. Paulo percebe que as contendas dos coríntios ainda não resultaram em cismas e que precisa chamar a igreja de volta a um relacionamento vivo com o Senhor e que deveria fazer isso de forma pastoral e positiva. Assim se dirige a eles como seus irmãos. Paulo exorta aos membros da igreja em corinto para que se entendam uns com outros, que confessem de modo unânime a Fé em cristo e permaneçam em paz uns com os outros.

Paulo neste versículo (I Cor 1:10. b) não esta pedindo uniformidade de pensamento, mas sim uma atitude de amor que se empenha por harmonia e paz. Eles são excitados a trabalharem juntos em unidade de mente e julgamento. Paulo escreve: ...“estejam unidos tanto na disposição mental quanto no parecer¨... o termo disposição mental esta relacionado ao poder de observação e a palavra parecer a formar um jugamento ou uma opinião igual. Paulo quer que eles estejam unidos em suas observações e seus julgamentos e que abandonem seu sectarismo. É importante observarmos, no entanto, que tipo de unidade Paulo esta lhes recomendado. Não é uma unidade que se busque a qualquer preço, mesmo que para isso seja comprometida verdades fundamentais. Muito menos é uma unidade nos mínimos detalhes, que implique afastar-se de qualquer um que deixe de por um ponto no “i” ou cortar todo “t”. È sim uma unidade no evangelho, nas coisas essenciais do evangelho.

Essa tendência de sectarismo e de fragmentação sempre esteve presente na igreja. infelizmente não foi sugada da igreja mais continuou a fruí dentro dela ao longo dos séculos. Sempre que passamos as páginas dos livros históricos, observamos que muitos desentendimentos houveram entre os teólogos. Muitos desses desentendimentos estavam relacionados a temas secundários, questões essas que não tinham importância para igreja.


Os exemplos de questões que levavam muitos a debaterem severamente eram: Qual é o sexo dos anjos? devemos ceiar todas as vezes que nos reunirmos?o que fazia Jesus na sua infância?devemos usar piano no culto solene? Como devemos batizar?Qual tipo de pão devemos usa na ceia (com fermento ou sem fermento)?Qual era o nome da esposa de Caim e como era maca que DEUS colocou em Caim? Quem criou o mal?E muitas outras questões ridículas que várias vezes chegaram a serem ¨resolvidas¨ no braço ou na espada. Essas questões só surgiram no seio da igreja para saciar a curiosidade infantil de muitos que não se conformavam com aquilo que foi revelado pela escritura. Insistiam em querer respostas para suas dúvidas, e quando não encontravam, eles criavam opiniões absurdas. Queriam a qualquer custo que as pessoas acatassem como verdade absoluta as suas pseudas verdades.


Hoje em dia, no entanto, muitos de nossos cristãos evangélicos não hesitam em ceder á tendência patológica em nossas convicções sobre unidade invisível da igreja como ser a unidade visível da igreja não importasse. E o resultado disso tudo é que o diabo sempre acaba ganhado. Se há algo que necessitamos muito, é uma dose maior de discernimento que nos permita distinguir entre as verdades essenciais do evangelho, que não podem serem comprometidas, e as adiaphora (questões indiferentes) sobre as quais, por serem de importância secundária, não precisamos necessariamente insistir em debatê-las. O que se poderia incluir hoje na categoria dos adiaphora? Apresento aqui quatro sugestões colocadas em forma de perguntas.


O Batismo: o batismo deve ser por imersão ou por aspersão?


A Santa Ceia: devemos ceiar em todos os cultos ou não?

Governo de Igreja: o sistema de igreja deve ser episcopal, presbiteriano ou congregacional?

Culto: há lugar para instrumento musical no culto, e é possível combinar o formal com informal?

Essas questões secundárias a respeito das quais nós podemos dar a cada um liberdade de consciência, deixam intactas as verdades cristãs primárias, especialmente aquelas que têm a ver com a pessoa e obra de Cristo, como as questões definidas no credo apostólico e no credo Niceno. Como também, as grandes doutrinas da reforma protestante. Nesta verdade nós temos de insistir: na combinação entre unidade em verdades primárias e liberdade em verdades secundárias, preservando o amor em todas as situações. Podemos sintetizar o que paulo quis dizer em forma de provérbio : ” na verdade, unidade; na questões duvidosas, liberdade, e em todas as coisas, caridade”.


Eu espero que este texto possa contribuir de alguma forma para unidade cristã. Ao acabar de ler esse texto você deve fazer-se uma pergunta:O que nos liga como igreja cristã?